Da objetividade à subjetividade – Parte I

Objetividade e subjetividade são termos, hoje, comumente utilizados tanto em meios acadêmicos quanto corporativos (e das mais diversas áreas). É comum ouvirmos “precisamos de ser mais objetivos” quando alguém deseja precisão e resultados; ou então “isto é uma resposta subjetiva” em relação à livre-opinião de uma pessoa e da qual se tenta evadir de qualquer julgamento racional.

Aprofundar-se no significado destes conceitos, entretanto, é um passo bastante necessário a quem deseja explorar tanto o funcionamento da mente (seja como um cientista ou como um mero possuidor de uma) quanto as possibilidades da inteligência artificial (IA).

Nesta série de 5 posts, a origem destes conceitos será revisitada através dos principais marcos na história da ciência, assim como suas implicações nas neurociências e na IA.


Parte I — O início do pensamento científico

O período renascentista, ao final da Idade Média, foi marcado pelos primeiros estudos anatômicos e pela engenhosidade das primeiras máquinas a vapor e aerodinâmicas, decorrentes do trabalho de Leonardo da Vinci (1452 – 1519); pelos estudos do sistema planetário, apresentados por Nicolau Copérnico (1473 – 1543); e pelas observações de Galileu Galilei (1564 – 1662) que, antes de ser acusado por um Tribunal de Inquisição, foi capaz de validar a teoria de Copérnico e contribuir para uma estruturação do método científico [1].

Vale dizer que o estabelecimento do método científico é atribuído a Francis Bacon (1561 – 1626), advogado britânico contemporâneao ao italiano Galileu e o primeiro da tradição empirista de pensamento. O método científico vigente na época consistia na observação dos fenômenos naturais; na experimentação — ou tentativa de replicação — em ambientes controlados; e, por fim, na transcrição do fenômeno em leis matemáticas. A principal contribuição de Bacon(1) a este método foi a de enfatizar a necessidade de se testar uma nova teoria através da busca de exemplos negativos [2], isto é, que o cientista se empenhasse em encontrar exemplos que não fossem atendidos por ela. Tal contribuição pode ser entendida como uma versão preliminar do método da falseabilidade proposto por Karl Popper, já no século XX.

Mesmo em uma época onde a fé e a razão ainda se confrontavam por vias de acusações, heresias e inquisições, os importantes trabalhos de René Descartes (1596 – 1650), de Isaac Newton (1642 – 1727) e de John Locke (1632 – 1704) dariam origem mais tarde, já no século XVIII, ao movimento intelectual que seria conhecido como o período do iluminismo [1].

Atribui-se a Descartes a fundação do que se define hoje por racionalismo moderno: a ideia de que somente através de métodos lógicos e racionais o conhecimento poderia ser adquirido [1]. Sua célebre frase “penso, logo existo” implicava no fato de que a única certeza de que ele poderia ter era de que pensava, e que por ora não poderia provar existência do seu corpo ou da realidade externa. Dessas primeiras meditações, como ele mesmo denominara, seguiram-se outras que muito influenciaram a filosofia moderna e as quais ainda hoje são debatidas(2). Mas um legado ainda mais importante do seu pensamento (pelo menos no contexto deste artigo) foi o conceito de dualismo de substância: a ideia de que o corpo e a mente constituem-se de substâncias distintas.

Sequer precisamos, neste momento, entrar na discussão se concordamos ou não com Descartes, tampouco no mérito dos seus argumentos. Em vez disso, podemos apenas observar o que vimos até agora sobre como a ciência estava caminhando:

  1. Até o fim da Idade Média (estamos falando do Ocidente!), toda e qualquer explicação acerca do mundo e do homem era eclesiástica.
  2.  Com os meios disponíveis à época (falo dos conceitos filosóficos, da matemática, da escrita, da madeira, do vidro, da tinta, etc.), o homem passa a observar a natureza(3) e a consolidar os padrões que descobria sobre ela.
  3. Descobrir regularidades, ou padrões, nos permite prever eventos. Alguém que passe trinta anos vendo o sol nascer dia após dia afirmará, com confiança, que o sol continuará nascendo(4). Seja qual for o processo de inferência, este simples raciocínio passa a por em xeque a ideia da criação e da regência divina da natureza.
  4. Ao pensarmos sobre os tribunais de inquisição e os conflitos entre a fé e a ciência que antecederam o iluminismo, é natural vir à mente dois grupos muito convictos de seus ideais tentando convencer (ou destruir) um ao outro. Mas sejamos empáticos com aqueles que não carregavam a chama iluminista em si e que tampouco eram do alto clero: se ainda hoje, em uma cultura globalizada pela liberdade de expressão e de pensamento, há quem tente segregar (ou agregar) sua fé de sua ciência(5), quão conflitante seria para o cientista do século XVII questionar seus preceitos religiosos face às suas observações do mundo?
  5. O dualismo cartesiano seria, então, a chave para separar estes dois conflitantes domínios e, de certo modo, uma autorização para a ciência naturalista: cuidemos do que é físico e objetivo e deixemos a mente e a alma — a subjetividade — para a Igreja ou, felizmente, para os filósofos.

Lembremos agora quais foram os feitos dos outros dois grandes nomes que prepararam o terreno para o iluminismo:

Um deles — acredito que ainda mais famoso nos tempos de hoje do que o próprio Descartes, afinal todos estudamos suas leis na escola — é o Sir Isaac Newton (Sir é um título honorífico dado pela Coroa britânica aos cavaleiros, lordes e figuras notáveis). E a razão de Newton ter recebido tão nobre título foi sua descoberta das leis físicas(6) aplicáveis ao universo. De fato seu trabalho teve notável influência e aplicabilidade — mesmo hoje, sabendo-se que as leis de Newton tratam-se de um caso particular da Teoria da Relatividade proposta por Einstein, elas ainda são suficientes para inúmeras atividades desempenhadas por engenheiros, físicos, fisioterapeutas, pilotos e jogadores de bilhar. Muito além de prover um entendimento da dinâmica das partículas, porém, as leis de Newton foram responsáveis por influenciar e estabelecer toda uma visão mecanicista do mundo e, principalmente, da mente(7). Este ainda é, aliás, um debate bastante atual.

O outro é o John Locke (1632 – 1704), filósofo inglês considerado por muitos como o pai do iluminismo [1]. Poderíamos definí-lo como o responsável por contrapor a corrente racionalista — aquela implantada por Descartes e que, sem demérito algum, deu origem à objetividade que alavancou a ciência natural — através de seu entendimento acerca da mente humana. Para John Locke, a mente era uma tábula rasa: algo como uma prancheta em branco onde tudo o que continha advinha, de algum modo, da experiência através dos sentidos. E somente então, após a experiência, é que a mente poderia se desenvolver pelo esforço da razão. Locke é, portanto, conhecido como o fundador da corrente empirista(8) de pensamento.

O período iluminista foi palco de grandes revoluções políticas, culturais e científicas. A ciência se estabelecera e o conflito, que antes era caracterizado entre a fé e a razão, tinha agora como protagonistas os racionalistas versus os empiristas. A solução para o impasse seria proposta apenas mais tarde, já no final do século XIX, por Immanuel Kant, quando ele publica suas importantes obras(9) e afirma que para entender o mundo eram necessárias tanto a razão quanto a experiência.

Chegamos até aqui com a perspectiva histórica que deu origem ao objetivismo racionalista na ciência — e que, diga-se de passagem, galgou grande sucesso no entendimento das coisas do mundo. A dualidade cartesiana foi determinante no desenvolvimento de todas as ciências naturais, mas sempre mostrou-se desajeitada para as coisas da mente. No próximo post desta série, revisitaremos o problema mente-corpo tanto a partir de perspectivas dualistas, originariamente trazidas por Descartes, quanto a partir das ideias introduzidas por Kant.


Notas

(1) A biografia completa e uma excelente revisão do trabalho de Francis Bacon está disponível na Stanford Encyclopedia of Philosophy.
(2) A Editora Martins Fontes publicou em 2016 uma edição traduzida, revisada e comentada da obra “Meditações Metafísicas”.
(3) Natureza, aqui, refere-se ao meio em que vive o ser humano.
(4) A observação de eventos e a consequente criação de um padrão fundamentado na sua repetição pode ser entendida como uma inferência estatística. Esta pode ser frequentista (clássica) ou Bayesiana (baseada em um conhecimento a priori e reatualizada).
(5) A matéria Ciência vs. Deus: um cientista e um padre entram num bar, por exemplo, aborda o espaço de diálogo entre a teoria do Big Bang e o criacionismo em uma agradável entrevista com um físico e um jeusíta.
(6) A primeira lei de Newton, conhecida como o princípio da inércia, diz que todo corpo continuará em seu estado de repouso ou de movimento uniforme retilínio até que uma força aja sobre ele. A segunda lei de Newton, denominada o princípio fundamental da dinâmica, afirma que a mudança de movimento é proporcional e resultante à mesma intensidade e direção da força aplicada. A terceira lei de Newton, por sua vez, estabelece o princípio de ação e reação, afirmando que para toda ação haverá sempre uma reação de direção oposta e de igual intensidade.
(7) A visão mecanicista do mundo — e sua decorrente visão mecanicista da mente — está bastante relacionada com algumas correntes teóricas da inteligência artificial. Muito embora não exploraremos este tópico agora, uma introdução sobre o tema e sobre seus principais pensadores e críticos pode ser encontrada na Wikipedia.
(8) A corrente empirista de pensamento — a ideia de que o conhecimento advém primariamente da experiência — é constituída pelos ensaios e tratados de John Locke, George Berkeley e David Hume.
(9) As principais obras de Immanuel Kant são Crítica da razão pura (1781); Fundamentação da metafísica dos costumes (1785); Crítica da razão prática (1788); e Crítica da facudade do juízo (1790).

Referências

[1] Cotrim, G. História e consciência do mundo. Saraiva, 1999.
[2] Kim, D. O Livro da Filosofia. Globo Livros. 2016.


Cite esta página:
T.B.N. Silveira. “Da objetividade à subjetividade: o início do pensamento científico”. Em “Mente, Corpo & Bytes_”. 2019. Disponível em <https://tbnsilveira.info/2019/01/14/objetividade-subjetividade-parte-i/>.  Acesso em [data consulta].



Categorias:Filosofia da ciência, Filosofia da mente, Ontologia

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